Quando eu era pequeno, meus pais compraram uma coleção enorme de cds de música clássica. Eu não tinha nem dez anos e podia, à minha revelia, escutar Beethoven, Wagner, Bach, Chopin e até Shostakovich. Até onde eu sei, porém, nem minha mãe nem meu pai eram fãs de música clássica. Se, com minhas mãos gordas, pequenas e sujas- mãos de criança- eu colocava um desses cds no som, eles escutavam sem problemas: a música erudita pode ser considerada maçante mas, a não ser que se trate de algum compositor do século XX, dificilmente pode ser classificada como incômoda ou barulhenta. Mas suas preferencias estavam em outros estilos: pop e rock.
Mais tarde, ao envelhecer, meu pai abandonaria os Rolling Stones e o Pink & Floyd para gostar de música sertaneja. Provavelmente decidiu que precisava adequar seu gosto musical ao que (pensava) pessoas de sua idade deveriam escutar. Minha mãe, por outro lado, não só continuou com o mesmo gosto, mas incorporou, lado a lado com seu saudosismo, o gosto por bandas mais novas- muitos dos meus amigos se espantam com isso.
Meu irmão, três anos mais novo, aprendeu comigo a gostar de heavy metal, no tempo em que eu me considerava um headbanger. Comigo ou com meus amigos: acho que ele queria não gostar do mesmo que eu, mas sim integrar-se com eles. Tanto que depois que eu acabei me afastando, por um processo mais ou menos natural em que passei a ouvir outros tipos de música, ele os tomou para si, até que formasse seu próprio grupo de adolescentes- que escutaria outros tipos de música.
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Foi nessa época, no entanto, que eu decidi aprender a tocar um instrumento. Guitarra. Afinal, ninguém pode ser um bom headbanger se não tocar um instrumento. Melhor ainda se for guitarra: Tommy Iomi, Zakk Wilde e Michael Kiske eram ícones a serem copiados. Mas eu nunca fui um estudante dedicado. Não para a música, pelo menos: meu estudo se resumia às aulas semanais, de uma hora. Mais tarde montei algumas bandas, o que me fez estudar um pouco mais. A diminuição do meu interesse em heavy metal e um vocalista esquizofrênico, porém, fizeram com que eu abandonasse qualquer grande pretensão com a guitarra. Quando comecei a ouvir música gótica, porém, os baixos ousados e repetitivos do Bauhaus e do The Cure me fizeram vender a guitarra e comprar um baixo. O fato de as músicas serem, na maioria das vezes, mais fáceis de tocar do que os riffs do Black Sabbath ou do Iron Maiden, foi animador. Mas nem assim eu me dediquei mais ao instrumento.
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Hoje eu desisti de qualquer pretensão musical. Ainda tenho meu baixo: em um arroubo arranquei-lhe os trastes, o que deixou seu som muito mais interessante, mas que lhe tirou grande parte do valor que teria ao ser vendido. Eventualmente toco com alguns amigos, eventualmente toco sozinho.
De maneira inconsciente acho que decidi deixar a música ser algo secundário na minha vida. É claro que gosto de música, e até mesmo vou a shows. Agora mesmo, enquanto escrevo, além de beber uma cerveja, escuto Sigur Rós. Mas posso viver sem música. Nos meus melhores e nos meus piores momentos, é no silêncio que eu encontro eco, não em canções.
Talvez isso se deva às minhas frustrações passadas. Talvez isso seja por eu ter me tornado um tanto quanto amargo com o passar dos meus poucos anos. Mas o fato é que às vezes a música pode chegar a me irritar. Às vezes, não compreendo a necessidade que as pessoas têm dela.
Eu sempre toquei fora de ritmo.
Muito bem escrito, mas vc nunca tocou fora do ritmo, vc sempre tocou e sempre tocará nos eu ritmo e isso merece respeito. Bj, Mãe.