Dói pra caralho saber que eu tenho idade suficiente para ter morrido no massacre de Srebrenica. Se eu tivesse nascido um pouquinho mais pra lá – um oceano e o velho mundo mais pra oriente – eu talvez já tivesse morrido, lá pelos nove anos. Se eu me chamasse Džan, Emir, Mustafa ou Matej, eu talvez já tivesse morrido e não fosse tão filho da puta. Não ia olhar o sol pela janela não ia bolar cigarros com fumo Bressan e papel não alvejado que tem menos clorina e portanto não deve ser tão carcinogênico. Não ia ficar deitado o dia todo triste pensando sobre as pessoas que eu suturei e as pessoas que eu machuquei e aquelas que ainda vou machucar e será que vou suturar também? – mas dói pra caralho porque é puro acaso e as vezes eu acho que a vida não vale nem um pouco a pena. Eu fico trancado olhando radiografias de gente que pra mim nem tem nome e me indago se lá não morreu ninguém que seria melhor médico poeta estudante filho namorado ser humano do que eu – deve ter morrido tanta gente boa e eu aqui desperdiçando oxigênio e fazendo as pessoas chorarem. Mas adultos também morreram (e apesar da minha cabeça oca eu acho que sou adulto) então se houver algum outro massacre quem sabe ainda dá tempo de eu me redimir por ter sobrevivido a Srebrenica por estar no lugar errado na hora errada ou por não me chamar Azur, Vedad, Amin ou Davud.
Werckmeister harmóniák (Tarr Béla).
É difícil ser a pessoa
que alguém
ama: estava pré-
ordenado que deveríamos nos separar.
O hálito doce da bebida, o vômito
seco me cobrindo: talvez
se eu fosse um pouco mais
como Essenin
eu pudesse.
Uma noite quebrada em que
olho pro céu e não
vejo
nada: lembro de quando
como que por acaso
você
me acusou de não ter lido
nenhum
poema de amor me acusou
eu só não tive coragem de dizer
que aqueles poemas todos
eram teus
que apesar de tudo eu tenho uma porra de um
coração.
Oco, mas teu.
Agora a guerra
foi perdida: enterramos
nossos mortos
e continuamos a estudar
a língua sagrada (mas cada um em
seu canto).
Казимир Малевич
desconstruo-me
geometricamente
linhas formas cores
e pontos: um segundo da existência
o desparecimento inconteste
de toda a realidade
rejeito o entendimento em nome dos cadáveres
brancos
vermelhos
uma profusão de matizes
infelizes
fumo no escuro pois gosto de ver a brasa
rubra incandescente como
nem sei o quê
estou sempre acenando adeus
e fodido por dentro
o peso dos meus atos inertes me puxa
para o fundo me afogo no mar de mim
quase não sinto mais teu cheiro
aí me lembro que
mentiras de amor são crimes de guerra
e eu não quero ser só mais um homem
oco
1963
um terremoto de
proporções desastrosas mais
de mil
pessoas mortas
(na metade do caminho entre Belgrado e Atenas)
ruínas otomanas perdidas
quantos anos
empilhados sobre os cadáveres