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Conjectura

Aprendi a calcular:

os vazios

estão em todo lugar.

 

Assim controlo o Universo.

 

Existem, porém,

muitas coisas as quais não posso chamar de belas:

os pecados de uma raça triste que não conhece o próprio nome,

o orgulho dos homens aliado a seu silêncio,

crimes de guerra que cometemos em épocas de relativa paz.

Eu abro a caixa de correio,

lá dentro só existem contas.

Vencidas, não serão pagas.

 

Há muito tempo que ninguém escreve cartas.

Apenas envelopes timbrados

com nomes impessoais:

bancos, empresas, corporações.

Nem um único ser humano para me desentender.

 

Eu tento conversar com alguém,

mas parece que só eu me importo.

Alguns se preocupam e oferecem dinheiro emprestado.

 

Continuo escrevendo cartas sem destinatário.

Se você me acordar
no meio
da noite, sacudir
meu corpo,
assustada,
com medo
de um sonho
eu, talvez, não
sabia o que fazer
eu, talvez, apenas
diga que volte
a dormir.

Se você me acordar
no meio
da noite, sacudir,
meu corpo,
assustada,
com medo
da tristeza sem nome
eu, talvez, não
saiba o que fazer
eu, talvez, apenas
comece a chorar.

sobre música

Quando eu era pequeno, meus pais compraram uma coleção enorme de cds de música clássica. Eu não tinha nem dez anos e podia, à minha revelia, escutar Beethoven, Wagner, Bach, Chopin e até Shostakovich. Até onde eu sei, porém, nem minha mãe nem meu pai eram fãs de música clássica. Se, com minhas mãos gordas, pequenas e sujas- mãos de criança- eu colocava um desses cds no som, eles escutavam sem problemas: a música erudita pode ser considerada maçante mas, a não ser que se trate de algum compositor do século XX, dificilmente pode ser classificada como incômoda ou barulhenta. Mas suas preferencias estavam em outros estilos: pop e rock.

Mais tarde, ao envelhecer, meu pai abandonaria os Rolling Stones e o Pink & Floyd para gostar de música sertaneja. Provavelmente decidiu que precisava adequar seu gosto musical ao que (pensava) pessoas de sua idade deveriam escutar. Minha mãe, por outro lado, não só continuou com o mesmo gosto, mas incorporou, lado a lado com seu saudosismo, o gosto por bandas mais novas- muitos dos meus amigos se espantam com isso. Continuar Lendo »

Na lassidão de cada palavra, na sombra de cada silêncio, eu pressinto um sentido. Em cada gesto, em cada olhar eu percebo que algo me escapa. Em cada sopro eu sei que há algo que meus sentidos não apreendem. Mas não há nada que eu possa fazer: já estou longe, já não lhe pertenço mais. Meu corpo molhado se move e, por um instante, surge o vazio. Em frações de segundo, porém, mas moléculas de água se movem também, preenchendo esse vácuo. Do mesmo modo, a morte se move e preenche o que há dentro de mim, e eu já não consigo mais me lembrar.

Apenas terra e água. No silêncio escuto meus companheiros e, juntos, espreitamos a escuridão, em busca de um movimento qualquer, à espera do momento exato em que tudo há de se romper. Esperamos a hora de deixar que nossa violência flua, esperamos a hora de nos abandonarmos ao ocaso. Até lá, no entanto, não posso se não repassar novamente em minha mente as cenas da quais não mais me lembro, imagens já sem cor e sem som, uma centelha apenas do que já se foi.

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sinto os azulejos

frios

sob minhas costas

quadrados brancos

e coloridos

de tamanhos

diferentes

ao meu redor

caos: um

computador e roupas

limpas e sujas

livros (uma torah,

uma coletânea de poesia polonesa e livros

sobre obstetrícia) e ainda

uma garrafa de vodca e uma

caixa de remédios- na verdade são três:

benzodiazepínicos, antidepressivos e

um chá

que veio da índia

(feito de folhas de limão,

com aroma agradável e um leve

um leve sabor cítrico)

adormeço sem ao

menos apagar a luz

sinto os azulejos

frios

Animais

1:

Eu me sinto como um prisioneiro.

Um escravo do meu desejo, acorrentado por minhas afeições. Sinto-me como um animal enjaulado.

Porta e janela fechadas me trazem um pouco de liberdade. Mas eu queria poder sair. Eu queria poder ir lá fora e, sob a chuva, dançar nu. Selvagem. Não domesticado. Menos que humano.

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eu estava sozinho em

meio a neve e sentia

sua falta. comprei

uma garrafa de vodca

com seu nome escrito no rótulo.

agora estou sozinho

e meio a neve e ainda sinto

a sua falta.

הַכְנִיסִינִי תַּחַת כְּנָפֵךְ,

וַהֲיִי לִי אֵם וְאָחוֹת,

וִיהִי חֵיקֵךְ מִקְלַט רֹאשִׁי,

קַן-תְּפִלּוֹתַי הַנִּדָּחוֹת.

 

וּבְעֵת רַחֲמִים, בֵּין-הַשְּׁמָשׁוֹת,

שְׁחִי וַאֲגַל לָךְ סוֹד יִסּוּרָי:

אוֹמְרִים, יֵשׁ בָּעוֹלָם נְעוּרִים

הֵיכָן נְעוּרָי?

 

וְעוֹד רָז אֶחָד לָךְ אֶתְוַדֶּה:

נַפְשִׁי נִשְׂרְפָה בְלַהֲבָהּ;

אוֹמְרִים, אַהֲבָה יֵשׁ בָּעוֹלָם –

מַה-זֹּאת אַהֲבָה?

 

הַכּוֹכָבִים רִמּוּ אוֹתִי,

הָיָה חֲלוֹם – אַךְ גַּם הוּא עָבָר;

עַתָּה אֵין לִי כְלוּם בָּעוֹלָם –

אֵין לִי דָבָר.

 

הַכְנִיסִינִי תַּחַת כְּנָפֵךְ,

וַהֲיִי לִי אֵם וְאָחוֹת,

וִיהִי חֵיקֵךְ מִקְלַט רֹאשִׁי,

gloomy sunday

E isso é para ser a primeira partezinha de algo a respeito do Reszo Seres, o cara que compos a ‘Gloomy Sunday’.

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